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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Testemunho de António Lobo Antunes


                   Adeus                


Nesta crónica em jeito de testemunho familiar António Lobo Antunes valoriza a profissão dos médicos que têm o poder de salvar vidas. Nasceu em Lisboa, no seio de uma família da pequena burguesia, o seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, foi um destacado neurologista português, assistente de Egas Moniz e professor de Medicina.  Irmão de João Lobo Antunes (Lisboa, 4 de junho de 1944 – Lisboa, 27 de Outubro de 2016), neurocirurgião português e ex-membro do Conselho de Estado, e Nuno Lobo Antunes  neuropediatra. 
António Lobo Antunes licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Após a conclusão do curso foi destacado como médico militar durante a guerra colonial entre 1971 e 1973 no leste de Angola, quando terminou o cumprimento do serviço militar, Lobo Antunes especializou-se em psiquiatria, tendo exercido a especialidade durante alguns anos no Hospital Miguel Bombarda até a abandonar por completo em favor da literatura.
" De muitos outros médicos devia falar, mas isto é só uma pequena crónica sem pretensões, e todos merecem melhor do que isso. Tenho tanta vaidade em ser vosso colega, vosso colega não, daqui em diante sou apenas o senhor António Lobo Antunes, todo coberto de condecorações, prémios, honrarias, e de que serve isso, ao passo que vocês são Médicos. E tenho de curvar-me, com humilde respeito, diante da vossa profissão. Um escritor não cura ninguém salvo, talvez, a si mesmo. "
Revista Visão, 2016-02-18

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Quando tudo isto estiver feito...

Tenho por hábito dizer que deveria ser proibido presenciar tanto sofrimento humano como aquele que já presenciei. Ainda assim estou consciente de que o futuro profissional ainda me reserva muitos momentos de dor, sofrimento e lágrimas. Quando o doente e a sua família sofrem é porque falhamos. E falhamos todos! Desde os profissionais de saúde aos cidadãos. É imperioso acabar com o sofrimento inútil e sem sentido. É impreterível reformular o nosso Serviço Nacional de Saúde e adequá-lo às reais necessidades da população. É necessário fortalecer a rede nacional de cuidados continuados integrados e de cuidados paliativos. É indispensável reforçar planos nacionais, tal como o plano nacional de luta contra a dor. É preciso deixar de considerar normal haver listas de espera para consultas, exames complementares de diagnóstico e/ou tratamentos. Quando tudo isto estiver feito e nada mais for possível, falaremos de eutanásia… Até lá quero e exijo viver com dignidade e cuidar com dignidade. Falar de eutanásia é querer cortar a meta sem correr a maratona.
Testemunho de Ana Raquel Alves, enfermeira do Hospital Garcia de Orta (Almada)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Testemunho de Paulo Pascoal sobre cuidados paliativos

"Quero testemunhar a importância dos cuidados paliativos no fim de vida. A minha mulher faleceu nos cuidados paliativos na Casa de Saúde da Idanha/Belas e vi o quanto ela estava feliz e contente por, finalmente, não estar a sofrer e ser tão bem tratada.
A minha mulher faleceu, com 47 anos de idade, com um gliobastoma, detectado o 1.º sintoma (convulsão) em 11 de Março de 2008, morreu a 19 de Dezembro passado, deixou de andar em Maio e perdeu a fala em Junho. Esteve 2 meses nos Capuchos, 4 meses no IPO, 3 meses na Idanha/Belas.
Posso testemunhar o que são os tratamentos antes de chegar aos paliativos, os escassos que lá chegam, e penso que muita gente prefere a eutanásia por que toma contacto amiúde com esses "tratamentos" a montante dos tratamentos paliativos. Eu se não visse e vivesse o que são cuidados paliativos também queria a eutanásia para mim. Hoje o que me preocupa é se morrerei, salvo acidente ou morte súbita, usufruindo de cuidados paliativos. Não me quero alongar mais, mas saiba que pode contar comigo para defender publicamente os cuidados paliativos e lutar para que a rede se expanda rapidamente, pressionar o Estado a incrementar estes cuidados pelo país todo, que todo o ser humano, antes de discutir a a eutanásia, deverá saber o que são cuidados paliativos, tomar contacto com esses cuidados desde cedo, para saber que a morte pode, e não deve, ser dolorosa.
Continue a ler este testemunho aqui 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Uma definição por dia: boa prática médica

Nos cuidados de fim de vida pode considerar-se boa prática médica aquela que é orientada para a promoção da dignidade e da qualidade de vida do doente. Os meios para isso incluem a atenção integral do doente e dos familiares, o controlo dos sintomas, o apoio emocional e uma comunicação adequada. Todos estes princípios constituem a essência dos cuidados paliativos. A boa prática médica inclui também todas as medidas terapêuticas sensatas que evitem tanto a obstinação como o abandono, o prolongamento desnecessário da vida, como o seu encurtamento deliberado.