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segunda-feira, 6 de julho de 2020

O valor da vida não tem variações, por Pedro Vaz Patto

A ideia foi sublinhada no muito apreciado discurso do cardeal Tolentino Mendonça no Dia de Portugal. Aludia este à tese que vem sendo, mais ou menos explicitamente, sustentada durante a crise de pandemia que nos atinge, segundo a qual a vida das pessoas idosas, a que corresponde uma expectativa de menos anos futuros do que a das pessoas mais jovens, tem, por isso, menor valor. E, assim, seria legítima a seleção de cuidados de saúde em detrimento dessas vidas e em favor das vidas dos mais jovens.O controverso e muito influente filósofo utilitarista Peter Singer, numa entrevista publicada no jornal La Razón (a 16/6/2020), veio dizer isso mesmo: que a pandemia demonstrou que as vidas não têm todas o mesmo valor e que esse será o pensamento da generalidade das pessoas hoje em dia; que é legítimo sacrificar a vida de um idoso (só por o ser e por ter uma menor expectativa de anos de vida futura) para salvar a vida de um jovem. Na mesma linha, o professor de ética da medicina norte-americano Franklin Miller, em declarações ao jornal Avvenire (de 18/6/2020), afirmou que, em caso de “procura em excesso”, devem ser negados ventiladores a pessoas com mais de 80 anos e, se a pressão for mais grave, a pessoas com mais de setenta anos. Seria assim porque os jovens “têm mais a perder com a morte” e os idosos já tiveram a oportunidade de “uma vida completa”.
Contra a prevalência desta tese, surgiu uma petição da iniciativa da Comunidade de Santo Egídio intitulada Sem Idosos Não Há FuturoRecusa a legitimidade de serviços de saúde seletivos e que aos idosos, pelo facto de o serem, sejam negados cuidados de saúde necessários. Recusa o abandono, na lógica da “cultura do descarte”, da geração que “lutou contra as ditaduras e trabalhou pela reconstrução da Europa depois da Guerra”. Relembra o valor que aos idosos é dado em muitas civilizações. E afirma que o desprezo pela vida dos mais velhos acabará por se traduzir no desprezo de todas as vidas. Entre os primeiros subscritores desta petição contam-se figuras de grande nomeada e de vários quadrantes, como Andrea Riccardi, Romano Prodi, Jeffrey Sachs, Manuel Castells, Felipe Gonzalez, Jürgen Habermas; Marie de Hennezel, Hans Pöterring e o cardeal Mateo Zuppi. Também entre elas se inclui a jornalista portuguesa Maria Antónia Palla. Compreende-se melhor esta reação se considerarmos a denúncia de casos de recusa de cuidados de saúde a idosos atingidos pelo coronavírus que poderiam ter sobrevivido se tais cuidados lhes tivessem sido prestados. Há suspeitas fundadas de que tal tenha ocorrido em vários países, como a Itália e a Espanha. Na Suécia, há acusações de recusa generalizada do recurso a ventiladores para doentes idosos (só pelo facto de o serem), o que deu origem a uma petição intitulada Todos Têm Direito a Oxigénio.
Na Holanda, um protocolo da Ordem dos Médicos fixou critérios seletivos para situações de escassez de recursos e entre esses critérios considerou várias faixas etárias (dos 0 aos 20 anos, dos 20 aos 40, dos 40 aos 60, dos 60 aos 80 e mais de 80). O ministro da Saúde manifestou, porém, a sua oposição a este aspeto desse protocolo (ver Avvenire de 18/6//2020). Na verdade, o valor da vida humana não tem variações. Não é quantitativo (não se mede em anos ou de acordo com qualquer outro critério), é qualitativo. A dignidade da pessoa deriva do simples facto de ela ser membro da espécie humana, não de qualquer atributo ou capacidade que possa variar em grau ou que possa ser adquirido ou perder-se nalguma fase da existência. Depende do que ela é, não do que ela faz ou pode fazer.
A dignidade da pessoa é sempre a mesma, não varia em grau conforme maiores ou menores capacidades cognitivas, não é maior nas pessoas mais inteligentes ou menor nas menos inteligentes. Não depende da raça, do sexo ou da idade; dela nenhum ser humano está excluído. Não se vai adquirindo progressivamente até à idade adulta, existe na sua plenitude desde o início da vida. Não deixa de existir pela deficiência ou pela doença, físicas ou mentais, por muito profundas que elas sejam. Não se perde com a idade avançada, a demência ou o estado comatoso.
Também é evidente, desde logo, que a expectativa de anos de vida futura é sempre falível. Há quem viva mais ou menos anos de acordo com factores em tudo aleatórios (e ainda bem que assim é, por muitos motivos). Um ano ou um mês na vida de uma pessoa, na fase final da vida ou em qualquer outra fase, pode ser tão ou mais rico, em experiências, ensinamentos ou descoberta de sentido, do que uma ou mais décadas. Na fixação judicial de indemnizações pela perda do direito à vida (que visam compensar a perda desse bem não patrimonial que é pressuposto de todos os outros, sem qualquer pretensão de quantificar o seu valor, como se de um preço se tratasse), não se deverão fazer distinções em função da idade da vítima.
O princípio da igualdade (todas as pessoas são iguais, no sentido em que são dotadas de igual dignidade) veda uma discriminação em função da idade, como veda uma arbitrária discriminação em função de qualquer outro critério (de raça, sexo ou posição social). Ao racismo e ao sexismo equiparar-se-á aquilo a que em inglês já se designa como agism (e para que ainda não encontrei tradução portuguesa). Como se refere na exposição de motivos da petição lançada pela Comunidade de Santo Egídio, quem despreza a vida das pessoas idosas, acabará por desprezar outras. Também a propósito da eventual seleção de cuidados de saúde ligados à pandemia do coronavírus, chegaram a ser evocados, para além da idade, outros critérios discriminatórios. Alguns Estados norte-americanos aceitaram a discriminação de pessoas com deficiência, o que foi, naturalmente, muito criticado. A respeito da discriminação em função da “utilidade social” (teria mais valor a vida de um cientista do que a de um trabalhador indiferenciado), afirmou lapidarmente o Comité de Bioética espanhol: todo o ser humano é socialmente útil pelo simples facto de ser humano. A tese utilitarista de que a vida dos idosos tem menor valor parece não ter, no actual contexto, acolhimento e foi rejeitada pela generalidade das pessoas, médicos e autoridades. A pandemia veio até reforçar o repúdio de tal ideia: foi porque a vida dos idosos tem igual valor e deve ser preservada que se aceitaram tão graves restrições das liberdades individuais e tão graves consequências económicas e sociais do combate à doença. Mas importa estar atentos: temos exemplos recentes de ideias e práticas que em poucos anos passam do repúdio generalizado (por razões eticamente válidas e não simples tradição e preconceito) à indiferença e aceitação generalizadas.
Fonte: Sete Margens
Pedro Vaz Patto, Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O Valor da Vida - por Susana Mexia

A existência de cada ser vivo é produto de milhões de anos de evolução e de selecção, durante os quais, outros tantos milhões de organismos individuais nasceram e se extinguiram, o que transforma a vida num valor natural a preservar com todo o empenho e admiração pelo maravilhoso passado desta lenta evolução.
Biologicamente a vida na terra assenta na sua quase infinita diversificação e na sua perfeita adaptação ao ambiente em que cada espécie se situa.
Existe uma harmonia entre o planeta e a vida que dentro dele surgiu, formando-se entre ambos uma relação de unidade e de multiplicidade que sobrevive e se reproduz, ad eterno.
À semelhança da vida biológica, a vida social é também harmónica porque, à infindável multiplicidade de elementos que a formam corresponde uma unidade social que é assegurada por instituições permanentes.
É pela integração do indivíduo biológico e social no seio das instituições que as necessidades e desejos de cada um de nós ganha interesse colectivo na medida em que interioriza as suas regras, leis e valores, os quais permitem ultrapassar o individual egoísta e ascendem à esfera do absoluto, do todo, no qual se integram e pertencem como Pessoa. Ser Pessoa é constituir-se conscientemente como um ser de valores activo e desencadear comportamentos que, na ordem do bem, levem a ultrapassar o centro ético da sua esfera, para integrar os problemas do tempo em que vive, ajudar a solucioná-los para bem de toda a humanidade, a empenhar-se por deixar um mundo melhor aos vindouros, numa palavra: a ser útil e a deixar rasto.
É neste contexto que urge a imperiosa necessidade da formação da consciência moral bem formada e informada (não deformada), a fim de que cada ser humano possa compreender e interiorizar a riqueza que lhe advém pelo facto de ser uma pessoa e, como tal, portadora duma dignidade imensa, com possibilidade de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e entrar em comunhão com outras pessoas, potenciando uma imensa capacidade de amar e ser amado e fazer progredir o mundo renovando a justiça e a paz.
Tarefa sublime e única que só ao ser humano compete, por ser um animal racional e ter a capacidade/possibilidade de construir, à luz dum saber que se quer total e não relativo, amplo e não fragmentado, uma cultura de vida e não de morte, de amor e de apoio e não de descarte.
A vida é um dom que se acolhe, é um bem que se partilha e que, antes de desabrochar, já potencia toda a riqueza e mistério que nos envolve e transcende.
A vida é um valor em si própria e, como tal, merece ser respeitada e conservada até ao seu fim natural.

Texto de Susana Mexia, Professora de Filosofia