terça-feira, 4 de abril de 2017

A vida que há na morte

Publicamos um excerto do artigo do Expresso, do dia 2 de Abril, sobre a morte vista por profissionais de saúde que acompanham o ultimo suspiro de doentes terminais.



"Medo, Miguel Tavares ainda terá algum, mas aos 42 anos mudou muito, porque metade da sua vida foi passada a lidar com os últimos momentos de milhares de doentes. Enfermeiro numa unidade de cuidados paliativos na Região Norte, a sensação da banalidade da finitude colou-se-lhe à pele, afinal, aquela “não é uma camisola que se despe”. Vestiu-a ainda no estágio, ao ver um idoso com um cancro muito avançado ser obrigado a fazer uma colonoscopia, sem anestesia, um dia antes de morrer. “Aquele corpo foi ultrajado, e perguntei-me se não havia outra forma de lidar com a morte iminente.” Depois de anos nos cuidados intensivos, teve de decidir se continuava e, com receio de “tornar-se demasiado técnico por trabalhar com doentes inconscientes”, preferiu mudar. Há 16 anos não se ouvia falar em cuidados paliativos, até que uma colega trouxe a mensagem de Espanha. E foi aquele o caminho escolhido, até hoje sem desvios.
“O ato biológico de morrer é perfeitamente banal, mas o processo é profundamente individual”, sublinha. Razões que se erguem à noite, quando as luzes se apagam e os doentes veem-se mais sozinhos. “A noite é péssima companheira para alguém em fim de vida. É mais silenciosa, escura, um momento para encarar o passado. Muitas pessoas que quase não se queixam durante o dia, à noite requisitam muito apoio, e quando começa a amanhecer adormecem.” Explica que “não é de analgesia química que precisam, mas de analgesia humana, para uma dor mais profunda que o sofrimento físico”.Já ouviu segredos de vida, calou desabafos há muito adiados e percebeu que os doentes terminais costumam passar por três fases. Chegam revoltados, tentando encontrar culpados para a situação que os enferma, depois rendem-se e entregam-se aos cuidados sem maiores reivindicações. Os que têm tempo atingem a transcendência com uma clareza que impressiona. Doentes houve que já o fizeram chorar, e quando isso acontece Miguel agradece-lhes.
“Digo muitas vezes obrigado por me permitirem estar ali, a acompanhá-los.” Também foi por eles que várias vezes repetiu o exercício de escrever uma lista do que gostaria de fazer no último ano de vida. Descobriu que mais de metade eram coisas para fazer acompanhado. E foi assim que se foi descobrindo. “Sou contra a eutanásia, porque acredito que há alternativas e, sobretudo, porque penso que quando o homem vier a decidir sobre a própria morte, ele que não decide sobre o próprio nascimento, é porque se está a sobrepor a algo que não é sua função.” E é por isso que, diz, mais do que ajudar as pessoas a morrer, a sua tarefa “é ligar as pessoas à vida, enquanto cá estão”.
É no que também acredita Edna Gonçalves, presidente da Comissão Nacional de Cuidados Paliativos. Tanto que tem descoberto recentemente que o melhor tratamento que pode dar a alguns dos seus doentes em fim de vida é reduzir-lhes a medicação. Recorda um homem que era agressivo com a equipa médica e com a família, até que uma conversa revelou que o foco dessa intranquilidade era uma filha, também ela com problemas de saúde, que precisava dele. Tentaram encontrar formas de a amparar e, assim, pacificar o pai. Ou o doente com um cancro avançado, metastizado, que gritava de dor, confuso, até que lhe diminuíram a medicação, dando-lhe oportunidade para falar da doença, contar o que o atormentava. “O mais fácil era aumentar a dose, mas não é para isso que lá estamos, é para fazer as pessoas viverem. Matar, mesmo que metaforicamente, é crime.”
Pode ler todo o artigo aqui.

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